O endereço sugere: SCS e POA. O blog de uma menina-mulher que veio do interior para a capital e aprendeu muito mais que o jornalismo. Após 4 anos de constantes modificações, o blog é hoje um pouco do que eu fui, do que penso que sou e do que quero ser. É um verdadeiro misto de reflexões e sentimentos...
"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
Cecília Meireles
Esta Velha
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Álvaro de Campos
(um dos mestres)
Deixei a peteca cair...
De repente tudo escureceu e esfriou; minha energia parece ter sido quase completamente sugada, minha vida levada para algum lugar esquecido, longínquo.
De repente uma agonia cortante feriu meu coração, e sentimentos de profunda solidão e desolamento tomaram conta de mim.
De repente toda a luz se esvaiu por entre meus dedos, como a areia que escorre e que vai para o chão. Há tempo não me sentia tão indefesa, tão frágil, tão fraca.
Quis comer o que me aparecesse pela frente, numa tentativa desesperada de preencher aquele vazio que me congelava o peito, até dar-me conta de que estava fora de mim.
Parei, deitei e deixei minha mente divagar por nuvens brancas num céu absolutamente azul, até que eu já não pensasse em NADA. Respirei fundo e me deixei voar naquela imensidão azulada, num sono profundo: se eu continuasse daquele jeito, maltrataria a mim mesma ainda mais.
Passados alguns minutos levantei, me olhei no espelho e disse: vamos começar de novo, Marcela.
É... não tem sido fácil manter a sanidade...
Gostaria que as pessoas não me sugassem tanto, não exigissem tanto de mim, não esperassem tanto de mim.
Gostaria ainda mais que eu aprendesse a delimitar claramente os meus limites, para mim mesma e para os outros. Mais importante do que saber o que queremos é definir aquilo que NÃO queremos...
Temos escolha
No interessante livro Homem Lento, de J.M. Coetzee, há uma passagem que me marcou. É um confronto verbal entre o personagem principal do livro, um homem de mais de 60 anos que teve uma perna amputada depois de um acidente de bicicleta, e um garoto adolescente. Ambos estão no sombrio e decadente apartamento do velho, que resmunga: “Eu fui ultrapassado pelo tempo. Este apartamento e tudo o que existe dentro dele foi ultrapassado pelo tempo”. O garoto pergunta se ele não gosta de coisas novas. O velho (que nem é tão velho) responde: “Isso tudo um dia foi novo. Tudo no mundo um dia foi novo. Até eu fui novo. Na hora em que nasci, eu era a coisa mais moderna da face da Terra”.
Nada é tão moderno quanto nós ao nascermos. Sublinhei.
Prosseguindo o diálogo, o garoto então comenta, como quem não quer nada, que um dia foi visitar o avô para mostrar como funcionava um computador. O avô era bem velho e também tinha sido ultrapassado pelo tempo. Hoje fazia compras pela internet, enviava e-mails, recebia fotos.
“E daí?”, pergunta o mal-humorado sem perna.
“Daí que dá pra escolher”.
Eis uma frase, uma verdade, um verso: dá pra escolher. Todo dia, ao levantar da cama, eu procuro me lembrar: dá pra escolher. Nem eu nem você estamos jogados ao léu, nas mãos do destino. Não temos controle sobre tudo, mas dá pra escolher entre ter amigos ou viver recluso, dá pra escolher entre privilegiar um amor ou ter vários casos superficiais, dá pra escolher entre participar ativamente de um projeto que alavanque nosso bem-estar ou ficar de fora apenas criticando, dá pra escolher entre se refugiar num lugar tranqüilo ou aprender a lidar com o stress urbano, dá pra escolher entre levar a vida com bom humor ou levar a vida na ponta da faca.
Tudo é uma escolha, inclusive ser velho ou ser jovem, e isto não se resolve apenas numa clínica de estética. Todas as nossas escolhas passam pelo estado de espírito. É ele que vai determinar se vamos viver uma vida mais simples ou mais complicada, mais solitária ou mais social, mais produtiva ou mais lerda.
Dá pra escolher entre ser carnívora ou vegetariana, entre fumar ou não, entre correr na praia ou ficar um pouco mais na cama, entre jogar paciência ou ler um livro, entre amores serenos ou amores turbulentos. Se a escolha será acertada, aí já é outro assunto, o futuro vai dizer. Pensando bem, acertos e erros nem estão em pauta aqui. O que importa é ter consciência de que ficar sentado esperando que a vida escolha por nós não é uma opção confortável como parece. Descansados da silva, vem o tempo e crau: nos ultrapassa.
***
Infelizmente não poderei votar hoje porque estou longe do meu domicílio eleitoral – vou cumprir meu dever no segundo turno, se houver. Mas se você vai votar, não esqueça que dá pra escolher entre quem repete o mesmo discurso automático e quem apresenta soluções realizáveis. Entre quem tem apego ao poder e quem tem consciência social. Entre quem quer trabalhar só para si mesmo e seu partido, e quem quer trabalhar pela cidade. Não vá pelos outros, não vá por pesquisas: vá pela sua cabeça. Bom voto.
Coluna de Martha Medeiros na ZH de 5 de outubro de 2008.
Descanso, enfim
Hoje é o primeiro dia em que trabalho apenas um turno. Estou me sentindo estranha, mas feliz!
Dormi à vontade, e já começo a planejar como vou preencher esse tempo precioso de maneira produtiva e organizada!
Volto para contar as novidades!
Manual de comportamento para assessorias de imprensa
- Não envie o mesmo release mais de uma vez no mesmo dia; assim, você diminui as suas possibilidade de emplacar uma pauta, pois passa por DESESPERADO ou, pior, por MALA.
- Não telefone para uma redação para confirmar o recebimento de um release nos horários próximos à abertura e ao fechamento de um jornal. JAMAIS faça disso DURANTE o tele ou radiojornal.
- Não telefone para uma redação para confirmar o recebimento de um release enviado na semana passada. É quase 100% certo que ele foi deletado no MESMO dia.
- Quando for telefonar para uma redação para oferecer uma pauta, independente de ter enviado release previamente, SEJA OBJETIVO. Lembre-se do LEAD: "o quê? como? quando? onde? por quê? e, principalmente, QUEM?" Todo o resto que você falar será ignorado, a menos que a pauta interesse de pronto.
- Informe-se pelo menos um pouco sobre a programação do veículo ao qual destina o seu material de divulgação.
- Quando quiser confirmar mailing, de preferência envie solicitação por e-mail. Se fizer questão de telefonar para a redação, seja ágil e objetivo: quando a pessoa lhe informar o seu e-mail, como por exemplo, "marcela@pampa.com.br", não demore para anotar todos os e-mails. Dica: o final deles é sempre o mesmo ("....@empresa.com.br"). Evite ficar repetindo: "aaarrroooobaaaa paaaammmpppaaa... espera, espera um pouquinho! pooonntttoooo cooooommmm, poooonnntttooo bbeeerrrrrreee". Pelo amor de Deus, gente... Isso irrita DEMAIS quem tem milhões de coisas para resolver ao seu redor!
Que bom seria se pelo menos METADE das assessorias de imprensa seguisse essas regrinhas... Ai, ai... Que sonho!
É hora de recuar...
Conversando com um dos cinegrafistas da TV Pampa, senti uma fichinha caindo: de repente tudo me pareceu tão claro... Ele me contava, do alto da sua experiência, muitos dos sacrifícios que fez para sustentar seus filhos: as noites passadas em claro, trabalhando, os finais de semana perdidos, as datas comemorativas passadas dentro de uma televisão, etc.
Senti pena dele naquele momento, mas senti mais pena ainda de mim: 24 anos, sem compromisso com filhos, com casa, com prestações, com um pai absolutamente generoso e prestativo investidor nos meus sonhos. Me questionei: por que trabalho 14 horas por dia e tenho apenas os domingos de folga?! Por que me permito viver cansada e sem energia e concentração suficientes para inventar e criar, como eu gosto?!
Não faz mais sentido...
Eu tomei uma decisão errada, e agora estou trabalhando o meu psicológico para arcar com as conseqüências da minha próxima decisão, que é a de voltar atrás. Sou humana, e não há problema algum em desistir, eu sei. Mas quando todos ao meu redor me dizem que devo continuar, a dúvida é inevitável, por mais que meu coração – e principalmente o meu corpo – me digam que é hora de bater em retirada...
Decisões
Tomei uma decisão que vai mudar a minha vidinha definitivamente de novo: assumi mais um emprego, na Pampa mesmo. Eu já trabalhava na produção da TV das 15h às 22h. A partir de semana que vem, trabalharei também na produção da rádio Caiçara, das 7h às 14h, de segunda a sábado.
Estou, portanto, abdicando de muitas, muitas coisas, valiosíssimas pra mim, das quais jurei jamais abrir mão novamente pelo jornalismo, ou por qualquer outra atividade profissional que fosse. Estou com o coração na mão, com receio de não dar conta, com receio de não suportar, com receio de me arrepender. Felizmente tudo é transitório na vida e sempre temos escolhas, e eu vejo isso como um investimento inevitável, que se encaixa dentro de um planejamento segundo o qual estabeleci metas que pretendo cumprir, ou pelo menos chegar perto de cumpri-las.
Não tenho medo de trabalho, isso não me assusta: especialmente quando envolve rádio. Meu único medo é morrer de saudade. Mas saudade não mata. Tenho medo de perder meu namorado, mas se tiver que ser, não vai ser isso que vai acabar com o que temos.
Não temo mais perder a minha dignidade, que foi o que aconteceu da primeira vez em que fui realmente explorada por um veículo de comunicação. Hoje eu estou de peito aberto, me jogando de verdade: desta vez estou consciente do que me espera e estou disposta a enfrentar. Sei dos meus limites, já os conheço. Se eles forem ultrapassados, não vou titubear: entrego os pontos mesmo.
Acontece que 9 meses de ócio foram demais pra mim, e eu me prometi que isso não vai se repetir. Pra isso, pra evitar que todas as portas em que eu bata se fechem pra mim, estou investindo no meu currículo e em mim mesma, no meu conhecimento, na minha experiência, na minha própria capacidade e na minha segurança.
O preço é alto?! Ô!!! Se é! Mas eu estou pagando pra ver...
Sobre novelas
Não sou fã "número 1" do Juremir, mas gostei da coluna dele publicada hoje no Correio do Povo. Especialmente do último parágrafo:
O bom das novelas é que podem transformar o inverossímil em realidade. O telespectador não quer outra coisa. Quem gosta de verossimilhança é intelectual ressentido. O telespectador só quer delirar. Quanto mais absurdo, melhor. Novela e futebol têm uma única utilidade: servem para não se fazer nada fazendo alguma coisa. O intelectual tende a ver cada situação de uma novela como representando o todo social e passando uma mensagem. Se a vilã escapa, quer dizer que os maus se dão bem. O telespectador crê que aquela é uma história particular capaz ou não de representar o todo social.
Meu dia
26 de maio: As mulheres nascidas neste dia representam o ponto de vista do bem comum. Têm um forte desejo de liberdade, para agir à sua própria maneira e de forma extravagante, contrariando os conceitos da sua família ou do seu grupo social. Embora possam ter dificuldade em expressar suas emoções, têm um coração afetuoso.
O meu aniversário foi muito diferente dos últimos 23. Não foi frio, mas foi mais solitário do que eu quis. Entretanto, pude comemorar muito bem no final de semana, com a mãe e depois com o pai (e claro, com meus irmãos).
O legal de fazer aniversário são as manifestações inesperadas de afeto, isso foi muito bacana. Também foi muito bom passar mais um aniversário trabalhando, e desta vez com a carteira assinada. Foi um pouco triste não receber alguns abraços que eu contava como certos, mas isso acontece com todo mundo, principalmente comigo que, além de extremamente esquecida tenho, como diz o texto acima, dificuldade em expressar minhas emoções.
Agora tenho 24 anos, algumas histórias para contar, absolutamente nenhuma mágoa da vida ou de qualquer pessoa que seja. Fechei todos os capítulos anteriores, virei as páginas pendentes e estou hoje completamente aberta para a vida, que me chama como uma amiga que buzina no carro em frente à minha casa, dizendo: “pega logo a tua mochila e vamos pra estrada!”
Que venham os próximos 24, e os próximos, e os próximos, porque eu quero muito SER FELIZ!
Parabéns pra mim! Hoje estou orgulhosa!!!
Dormindo tarde novamente
Uma hora da manhã e ainda estou agitada. Já passeei por blogs, por perfis amigos no Orkut, por sites de notícias... Finalmente as pálpebras começaram a pesar, me deixando com aquela impressão gostosa de que a noite vai ser muito bem dormida.
Minha irmã me pergunta, vez em quando: "que tanto tu escreve?" E eu desconverso, invento uma desculpa qualquer. "Não sei, cada dia é uma coisa. Estou sempre a inventar alguma história".
Coisa boa escrever... Esse tem sido uma das melhores coisas de trabalhar até às 22h: eu sempre produzi mais e melhor à noite. Agora então...
Toda essa agitação se deve ao trabalho, que "dignifica o homem", que tem dado mais sentido à minha vida, que tem me devolvido com mais intensidade e rapidez a paixão pelo jornalismo, que eu tinha deixado adormecer e que eu resgatava aos poucos, muito aos poucos...
Novidades...
Tenho pensado e sentido tantas coisas nos últimos dias... Muitas não posso confessar aqui e agora. Quem sabe um dia essas coisas constem na minha biografia. Tá, uma delas é que eu estou sentindo muita saudade dos meus tempos de rádio. Não que a minha situação hoje seja ruim, ou pior... É apenas diferente. Mas que o rádio é o mais emocionante dos meios, isso é. Tenho esperança de que um dia ele me chame de volta!
Pois hoje mudei de meio. Continuo perseguindo os eletrônicos, minha paixão desde sempre. Nunca caí de amores pelo jornalismo impresso. Por outro lado, mandei currículos para tudo o que fosse possível, mas foi nos eletrônicos que encontrei as portas abertas.
Finalmente consegui o que eu tanto queria: estou trabalhando! Não sou contratada como jornalista, mas estou muito feliz! Sou produtora do jornalismo da TV Pampa! Trabalho das 15h às 22h, de segunda à sexta. E alguns sábados também.
Bom, por enquanto era isso!
Estou feliz!!!
Tópicos
Eu me irrito quando alguém me manda algum e-mail, daqueles prontos, com mensagens que fazem refletir, etc, e que dão nos seus próprios dedos. É como se a pessoa me dissesse: por favor, diz pra mim que eu estou agindo errado? Já é desagradável a gente ter que dizer, pra alguém que a gente gosta, aquilo que a pessoa NÃO quer ouvir. Pior é ela PEDIR pra ouvir, mesmo sabendo que NÃO VAI GOSTAR. Vai entender...
É inevitável: com o tempo a gente vai se domando, controlando, atenuando o nosso comportamento e abafando certas convicções. Em alguns pontos a gente se entrega mesmo. Isso se aplica a mim quando penso na realidade do mercado para o jornalista. Se eu parar para pensar, é MUITO injusto. Foi duro ouvir a minha irmã me aconselhando, e eu tendo que concordar, que se eu quiser trabalhar VOU TER QUE me conformar com isso. O jeito é entrar na dança. Eu preciso começar de uma vez por todas. Quando eu tiver uma idéia mirabolante, apresento para alguém que queira me financiar. Que tal?!
O lado bom, realmente bom, o mais valioso, de estar desempregada e absolutamente desocupada, justamente pela falta de receita e pelo excesso de despesas ( ! ), é poder dormir uma manhã inteira nesse frio. Lembro agora daquele comercial: “não tem preço!”. Moral da história: temos que valorizar o que temos, e não o que nos falta!
Se quiser saber como estou: muito bem, obrigada! Sigo a sugestão de uma certa ministra: “relaxa e goza!”. Estou aprendendo a curtir cada minuto do meu ócio, e está sendo tããããooo bom! Acho que vou sentir muita falta disso quando voltar a ser escrava!!!
Mais uma lembrança me ocorre agora: um gibi do Zé Carioca (eu amo gibis, até hoje). No dia dos pais, os sobrinhos do Zé precisavam levar seu pai ou representante legal (no caso, ele) à escola para falar sobre a sua profissão. Adivinha qual é a profissão do Zé Carioca?! Perito em assuntos de lazer e relaxamento! É o que eu estou me tornando!!!
Ronaldo e o preconceito
(coluna do Juremir hoje no Correio do Povo)
O jogador Ronaldo, o Fenômeno, levou três travestis para um motel: qual o problema? Por que ele precisa se envergonhar disso? Por que tem de pedir desculpas aos fãs? Por que não pode dar tratos à bola da sua libido numa boa e sem constrangimentos? É crime ir para a cama com três travestis? Por que isso arranha a sua imagem a ponto de a Nike pensar em rescindir um contrato vitalício com ele? O sujeito não praticou pedofilia nem estupro. Se tivesse levado três top models, dessas magronas que vendem qualquer badulaque só de calcinha, causaria a minha rejeição e teria de pedir desculpas à sociedade? O caso Ronaldo é sintomático: revela o velho preconceito com novas máscaras. Depois do acontecido, Ronaldo teve de se explicar para o mundo inteiro e pagar o mico de uma contrição compulsória. Ele se prestou ao jogo. Malandro!
O moralismo encontra formas curiosas para voltar à cena. O último baluarte da moralidade absoluta deve ser o esporte. Volta e meia, porém, o mundo treme com algumas revelações estonteantes: homossexualismo entre jogadores de um clube, festas até o amanhecer, mulheres na concentração, escapadas de atletas exemplares ao mundo do sexo e outras notícias igualmente sensacionais. A frase mais ouvida nos últimos dias foi: Ronaldo poderia ir para o motel mais luxuoso do mundo com três deusas e foi para um motel vagabundo com três travecas? Que será que deu nele? A resposta é desconcertante, estupenda, simples e cartesiana: vontade. Eu conheço muita gente que já teve vontade de fazer isso e até algo mais. O único deslize real de Ronaldo teria sido pedir para cheirar alguma coisa. Aí já entra no terreno da ilegalidade. O resto é pura conversa fiada machista e moralismo travestido.
O problema mesmo, porém, é outro: deu barraco. A lei máxima da sociedade do espetáculo é clara e irrefutável: tudo pode ser, menos barraco. Parece que um dos travestis do Ronaldo já vai escrever a sua autobiografia precoce e definitiva, embora passageira. Faz bem. Dificilmente terá outros cinco minutos de glória tão emocionantes ao lado de uma estrela internacional. Título possível da obra: 'A Melhor Defesa É o Ataque com Ronaldo'. Sugiro que alguma empresa de telefone celular contrate esse travesti, assim como fez com a penetra do casamento do Ronaldo num castelo francês, para divulgar os seus serviços. Chega de preconceito. Cada um deve ter direito de ir para um motel com três ou quatro travestis se o esquema for do seu agrado.
Até agora, só New York Times defendeu Ronaldo. É a vingança norte-americana contra aqueles que acusam os Estados Unidos de puritanismo. No Rio Grande do Sul, já tivemos a poltrona 36. Na Inglaterra, Beckham e os seu amigos já entraram em campo vestindo as calcinhas das esposas. Por que Ronaldo não poderia se recuperar de uma lesão enfadonha matando o tempo com travestis num motel simples e barato? Um milionário como ele pode se dar ao luxo de prazeres econômicos e, quem sabe, autênticos. A minha admiração por Ronaldo – que conheci na Holanda, quando um treinador do PSV me pediu para servir de intérprete num sermão ao craque iniciante, aconselhando-o a treinar mais e transar menos – só aumentou com esse caso insólito. Ronaldo pode não ser machão, mas é homem.